Se o seu varejo fosse uma série, em que episódio seus clientes abandonam?

Vamos imaginar a jornada do cliente como uma série.

O primeiro episódio começa quando uma campanha consegue captar sua atenção.
O segundo, quando ele entra no site ou no aplicativo.
O terceiro, quando explora produtos, compara preços e avalia alternativas.
E o episódio final acontece quando decide comprar.

No entanto, na maioria dos casos, a história não chega ao desfecho.

Segundo o Baymard Institute, a taxa média global de abandono de carrinho no ecommerce é de 69,9%, o que significa que quase sete em cada dez clientes que iniciam um processo de compra não o concluem.
Em termos simples, a maioria dos clientes abandona a série antes do episódio final.

Para os líderes do varejo, esse número revela um desafio estrutural: a experiência do cliente se rompe em algum ponto da jornada. A pergunta estratégica já não é apenas como atrair tráfego ou aumentar a visibilidade da marca.
A verdadeira questão é em que episódio da jornada seus clientes estão abandonando.

Episódio 1: Atrair clientes já não é suficiente

Durante anos, o varejo investiu fortemente em marketing digital, plataformas de ecommerce e estratégias omnichannel para atrair clientes e gerar tráfego. Esses investimentos ampliaram o alcance, otimizaram campanhas e melhoraram a capacidade de aquisição.

Mas atrair, por si só, não garante conversão nem fidelização.

De acordo com o relatório State of the Connected Customer, da Salesforce, 88% dos consumidores afirmam que a experiência oferecida por uma empresa é tão importante quanto seus produtos ou serviços. Esse dado reflete uma mudança profunda na lógica competitiva: o diferencial já não está apenas no produto ou no preço, mas na qualidade da experiência que envolve todo o processo de compra.

Nesse contexto, atrair clientes é apenas o começo da história. O que realmente determina os resultados do negócio é a capacidade de desenhar experiências fluidas, consistentes e sem fricções ao longo de toda a jornada.

Episódio 2: A fricção que interrompe a história

Um dos momentos mais críticos da jornada acontece quando o cliente já tomou uma decisão inicial de compra. Ele encontrou o produto, comparou opções e o adicionou ao carrinho. Em teoria, a história está próxima do final.

No entanto, é exatamente nesse ponto que muitas experiências se quebram.

Pesquisas do Baymard Institute indicam que:

  • 48% dos clientes abandonam a compra devido a custos adicionais inesperados, como frete ou impostos
  • 24% abandonam quando são obrigados a criar uma conta antes de finalizar a compra
  • 22% desistem porque o processo de checkout é longo ou complexo

A maioria dos clientes não abandona por falta de interesse.
Abandona por fricção.

No varejo digital, até pequenas barreiras — processos de pagamento extensos, interfaces pouco intuitivas ou ausência de suporte em momentos críticos — podem se tornar pontos de ruptura que interrompem a história pouco antes do desfecho.

Episódio 3: O abandono silencioso

No varejo tradicional, uma experiência ruim podia gerar uma reclamação, uma devolução ou um contato com o atendimento ao cliente. Nos ambientes digitais, o comportamento mudou. Hoje, o cliente simplesmente vai embora.

Segundo a PwC, um em cada três consumidores afirma que abandonará uma marca que aprecia após apenas uma experiência negativa.

Esse fenômeno é cada vez mais conhecido como abandono silencioso. O cliente deixa de interagir com a marca sem fornecer feedback direto, o que dificulta a identificação precisa de onde e por que a experiência falhou.

Para os líderes do varejo, isso cria um desafio crítico: compreender o comportamento do cliente em tempo real e agir antes que a experiência se rompa de forma definitiva.

Episódio 4: Quando a experiência é gerida como um sistema

Um dos principais obstáculos para reduzir o abandono é que, em muitas organizações, a experiência do cliente ainda é gerida de forma fragmentada. Marketing foca na aquisição, ecommerce na conversão, operações na eficiência e atendimento ao cliente na resolução de problemas.

Do ponto de vista do cliente, porém, a experiência não é vivida em áreas ou departamentos.
Ela é vivida como uma jornada única e contínua.

Por isso, cada vez mais organizações estão adotando abordagens integradas de gestão da experiência, conectando pessoas, tecnologia, analytics e inteligência artificial para desenhar interações coerentes ao longo de toda a jornada.

Nesse modelo, a experiência deixa de ser responsabilidade de uma área específica e passa a ser uma capacidade organizacional que articula talentos, processos e tecnologia.

O princípio é claro:
a experiência do cliente não se otimiza em um único canal — ela é orquestrada em todo o negócio.

Episódio 5: Inteligência artificial para antecipar o abandono

A inteligência artificial tornou-se um acelerador essencial dessa transformação. Mais do que automatizar tarefas, a IA permite analisar grandes volumes de dados comportamentais para compreender melhor as intenções do cliente e antecipar possíveis pontos de fricção ao longo da jornada.

De acordo com a McKinsey, empresas que utilizam inteligência artificial para personalizar a experiência do cliente podem aumentar suas receitas entre 10% e 15%, ao mesmo tempo em que melhoram significativamente a eficiência operacional.

No varejo, essas capacidades permitem:

  • Detectar sinais precoces de abandono
  • Personalizar recomendações em tempo real
  • Oferecer assistência conversacional nos momentos mais críticos do processo de compra

O resultado é uma experiência mais ágil, relevante e alinhada às expectativas do consumidor. A experiência deixa de ser reativa e passa a ser preditiva.

Episódio 6: Transformar a operação para transformar a experiência

A evolução para experiências mais inteligentes não depende apenas da adoção de novas tecnologias. Ela também exige repensar como os processos que sustentam cada interação com o cliente são desenhados e operados.

Nesse contexto, modelos de transformação de processos de negócio — apoiados por analytics avançado, inteligência artificial e talentos especializados — permitem redesenhar jornadas completas com foco claro na experiência do cliente e nos resultados do negócio.

Diferentemente dos modelos tradicionais de outsourcing, essas abordagens buscam gerar impacto direto tanto na satisfação do cliente quanto na eficiência operacional, evoluindo de uma gestão reativa de interações para uma gestão integral das jornadas.

Na economia digital, a experiência já não é apenas uma função organizacional.
É o modelo de negócio.

Então, em que episódio seus clientes abandonam?

Em um ambiente no qual as expectativas dos consumidores evoluem constantemente e a concorrência se intensifica, a experiência tornou-se um dos principais fatores de diferenciação no varejo.

Por isso, a pergunta para os líderes do setor já não é apenas como atrair mais clientes.
A verdadeira pergunta é:

Se o seu varejo fosse uma série, em que episódio seus clientes estão abandonando — e o que sua organização está fazendo para mudar o final da história?

Porque, no varejo do futuro, as marcas que liderarão o mercado não serão apenas aquelas que atraem as maiores audiências.
Serão as que conseguirem orquestrar experiências integradas, inteligentes e conectadas, em que cada episódio da jornada fortalece a relação com o cliente — e o motiva a voltar para a próxima temporada.

Compartilhe

Related Articles

Quando “IA Boa O Suficiente” Não é Suficiente: O Custo Oculto de Apostar em Fornecedores de IA Conversacional Não Comprovados

O mercado de IA conversacional está “superaquecido” neste exato momento.
Saiba mais

Interfile inicia POC com grande banco para transformar retenção e prospecção no crédito consignado

Saiba mais

Como a tecnologia e experiências inteligentes estão moldando o próximo ciclo do CX

Por Alexandre Martins, Diretor Global de Inteligência Artificial, Análise e Inovação da Atento
Saiba mais